Fantástica Gramática Automática
Monday, November 14, 2005
  Sem título #2
Quis começar a escrever uma carta para muito longe, para mais de quatro mil quilómetros de distância; não tenho a certeza se é assim tão longe, mas não interessa, estou longe. Quis começar a escrever a carta e não me ocorria forma de a escrever.
Os anos que foram passando e os empurrões da vida levaram-me a reprimir algumas formas de expressão dentro de mim. Olho para o papel em branco, ao lado do computador, com a esferográfica pousada em cima e sinto-me um traidor: há muito mais facilidade em escrever agora, do quando me sentei em frente à folha de papel branco com a esferográfica azul. Achei que fazendo primeiro a catarse deste bloqueio, conseguiria escrever uma carta verdadeiramente bonita.
Julguei ainda que pudesse ser da escrita à mão, e quando abri um novo documento no computador, as minhas mãos ficaram suspensas no ar, como se fios as não deixassem descer mais. Ficaram sobre o teclado, sem saber que teclas carregar primeiro, sem saber por onde começar.

Gostaria, nesta altura, de ter o virtuosismo do Pablo Neruda que toda a vida escreveu para a mesma mulher, que a ela dedicou os mais bonitos versos e, quem sabe, cartas repletas de sentimentos magníficos e exacerbantes, gloriosos. E mais do que tudo, sentidos.
Não me sinto vazio de sentimentos, muito pelo contrario, sinto-me pleno. Mas algures por aí, mais ano, menos ano, bloqueei a minha capacidade de conseguir expressar aquilo que sinto. E nem isso é totalmente verdade, porque consigo até expressar, fazer a escolha das palavras mais bonitas. Mas quando termino, um rubor espalha-se pela minha cara, sinto-me votado ao ridículo de quem disse coisas em desuso, coisas que já não se dizem.
Por influência da leitura, vejo-me num romance ultrapassado do Júlio Dinis ou do Almeida Garret. As palavras começam a sair em catadupa e não há forma de as parar. A saudade, o recordar os tempos passados juntos, os dias mais especiais, os segredos murmurados, o primeiro beijo e os outros igualmente bons.

(E um dia disseram-me: “olha, as mulheres gostam de ouvir essas coisas, mesmo que digam que não.”) Lembrei-me disto agora.

Olho para o papel e já vejo as palavras que tenho que escrever, como se à partida já estivessem no papel.
“Esta carta custou a começar, mas já leva o caminho certo. Na verdade, às vezes sinto este género de bloqueios porque tenho que escrever sobre sentimentos, porque tenho que escrever sobre...”
 
Comments:
É quase inevitável, depois de ler o teu post, recorrer às palavras nunca ultrapassadas de Fernando Pessoa, no hetrerónimo de Álvaro de Campos: Mas, afinal, só as criaturas que nunca escreveram cartas de amor é que são ridículas. (Todas as palavras esdrúxulas, como os sentimentos esdrúxulos, são naturalmente ridículas.)
 
Tu lamentas-te, mas se soubesses o que passei quando era mais novo! Qual teclado de computador, qual máquina de escrever, qual esferográfica, qual caneta de tinta permanente!
Era uma caneta de madeira com um aparo que se estava sistemáticamente a molhar num tinteiro.
E como eu, já em puto, era um bocado pró zanaga, fazia as letras muito grandes e gastava tinta que me fartava, estava sempre a levar nas orelhas.
Quando me compraram finalmente os óculos, apareceram as esferográficas!!
Safei-me à recta!

PS: As cartas de amor são as mais difíceis de escrever. Escrevi muito poucas e sempre com alguma timidez.
Mas voltaria a escrevê-las exactamente como as escrevi antes; apaixonadamente.
 
Então estás na Estónia, estou a ver-te num daqueles cafés acolhedores de Tallin na zona velha, no núcleo histórico; junto à muralha as vendedoras de flores, vão sendo solicitadas para novos arranjos, uma rosa e três malmequeres, duas geribérias e sete cravinas ... uma festa de cores que surpreende, entusiasma e distrai um latino a braços com uma carta para escrever para o seu amor, lá longe nos confins do mundo, em Portugal!
Mas esse português não é um qualquer, é alguém que de repente começa a escrever e nunca mais para, escreve abstraído do buliço que o circunda... está a passar para o papel o que lhe vai na alma e como é grande a alma deste homem!
Por isso, encontrará a forma certa de dizer à sua amada como são fortes os seus sentimentos!

(nota: ainda hoje, acompanho marisco com nectar de pessego)
 
tenho tanta pena de não ter a tua coragem........
 
... esqueci-me de te dizer que gosto do teu novo visual, é o de inverno? tás giro!
Será que o teu coração bate assim tanto por causa da vodka ou do valium10??!!
Bj :)
 
as cartas de amor devem sempre ser escritas e enviadas. é a unica coisa que não deve ,nunca, ficar por fazer.
 
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