Sem título #2
Quis começar a escrever uma carta para muito longe, para mais de quatro mil quilómetros de distância; não tenho a certeza se é assim tão longe, mas não interessa, estou longe. Quis começar a escrever a carta e não me ocorria forma de a escrever.
Os anos que foram passando e os empurrões da vida levaram-me a reprimir algumas formas de expressão dentro de mim. Olho para o papel em branco, ao lado do computador, com a esferográfica pousada em cima e sinto-me um traidor: há muito mais facilidade em escrever agora, do quando me sentei em frente à folha de papel branco com a esferográfica azul. Achei que fazendo primeiro a catarse deste bloqueio, conseguiria escrever uma carta verdadeiramente bonita.
Julguei ainda que pudesse ser da escrita à mão, e quando abri um novo documento no computador, as minhas mãos ficaram suspensas no ar, como se fios as não deixassem descer mais. Ficaram sobre o teclado, sem saber que teclas carregar primeiro, sem saber por onde começar.
Gostaria, nesta altura, de ter o virtuosismo do Pablo Neruda que toda a vida escreveu para a mesma mulher, que a ela dedicou os mais bonitos versos e, quem sabe, cartas repletas de sentimentos magníficos e exacerbantes, gloriosos. E mais do que tudo, sentidos.
Não me sinto vazio de sentimentos, muito pelo contrario, sinto-me pleno. Mas algures por aí, mais ano, menos ano, bloqueei a minha capacidade de conseguir expressar aquilo que sinto. E nem isso é totalmente verdade, porque consigo até expressar, fazer a escolha das palavras mais bonitas. Mas quando termino, um rubor espalha-se pela minha cara, sinto-me votado ao ridículo de quem disse coisas em desuso, coisas que já não se dizem.
Por influência da leitura, vejo-me num romance ultrapassado do Júlio Dinis ou do Almeida Garret. As palavras começam a sair em catadupa e não há forma de as parar. A saudade, o recordar os tempos passados juntos, os dias mais especiais, os segredos murmurados, o primeiro beijo e os outros igualmente bons.
(E um dia disseram-me: “olha, as mulheres gostam de ouvir essas coisas, mesmo que digam que não.”) Lembrei-me disto agora.
Olho para o papel e já vejo as palavras que tenho que escrever, como se à partida já estivessem no papel.
“Esta carta custou a começar, mas já leva o caminho certo. Na verdade, às vezes sinto este género de bloqueios porque tenho que escrever sobre sentimentos, porque tenho que escrever sobre...”