Enmimesmado
Inventei esta palavra nova. Enmimesmado; quer dizer que ando a cismar em mim: um pouco como ensimesmado, mas em mim. Já registei a patente.
Porque sou eu, eu, eu, eu, eu, eu, eu, eu, eu, eu, eu.
Saí pela manhã de casa, o céu ainda não tinha definido a sal cor, estava num tom de azul escuro, mas prometia ficar de cinzento claro. Ainda nem eram oito horas e eu já guiava. Passei Santa Apolónia, passei a Praça do Comércio. Encostei o carro numa paragem, eram sete e cinquenta e nove. Fiquei a olhar para um amontoado
[Bateram-me no vidro do carro, baixei o vidro e perguntei se se passava alguma coisa, «Não menino» respondeu-me a senhora velhinha «é que está em frente à paragem e o condutor do autocarro às vezes zanga-se e não queria que ele se zangasse com o menino, que é Natal». “Obrigado”, «Não foi nada menino, tenha um dia feliz.»]
de ferro que está bem no meio. Olhei para aquela que dizem ser a maior árvore de Natal da Europa. Tantos metros de ferro e aço, frios – assim apagados condiziam com o dia, frio e cinzento – como é que poderia ser uma coisa boa? Olhei outra vez, pelo retrovisor do carro, e senti que todo aquele ferro caía e esmagava o meu espírito. O que é que significa tanto ferro e aço amontoado? Nada. Tudo,
suponho que a sua simbologia fálica entusiasme as pessoas, os homens como extensão do seu apêndice e as mulheres como o prazer que a sociedade reprime. Mas como é Natal, as pessoas têm direito a ter esperança naquilo que mais desejam. Direito e dever.
Continuei a guiar pela cidade, uma cidade parada e adormecida, sem que ninguém aparecesse ao ouvir o motor do carro que passava, sem acelerar muito, não queria acordar ninguém. Em silêncio, em biquinhos dos pés. Continuei a subir até à Praça da Figueira: no meio de umas arcadas, um homem e uma mulher saíam de dentro de uns cobertores e de caixas de cartão, onde tinham passado a noite. Via-se na cara dele o resto do frio da noite, da madrugada. Movimentavam-se como se tivessem às costas um mundo inteiro, como se a alma também lhes pesasse –
dos pobres de espírito e dos bem-aventurados é o Reino dos Céus. Querem morrer. O sinal vermelho virou verde e eu virei para a esquerda, para o Rossio.
O céu tinha-se decidido pelo cinzento claro que tinha vaticinado uma hora antes, quando tinha aberto o estore do quarto. E continuava sem haver ninguém nas ruas. Gosto da cidade adormecida, ou morta, mas silenciosa, apenas o barulho que eu faço a rasgar o silêncio, a atravessa-lo como a uma barreira de fumo. Na Avenida da Liberdade todos os semáforos estão verdes, carrego no acelerador quase a fundo e vou mesmo depressa, não sinto as irregularidades na calçada, ultrapassei a barreira do som e o Marquês de Pombal.
O liceu Camões e o Cinebolso. Arco do Cego. Praça do Chile. Morais Soares. Paiva Couceiro. Morais Soares. O coveiro que abre a porta do cemitério de São João.
Desliguei o carro e o rádio. A cidade começa a barulhar, fui acordar Lisboa. Volto a ligar o rádio e deixo-me adormecer à beira Tejo, deixo-me ficar a ver dançar as Tágides. Volto a Santa Apolónia. Eu comigo só, enmimesmado na manhã de um dia qualquer, de um dia igual outro Sábado. De uma manhã cinzenta clara.
Banda sonora para passear de manhã, numa manhã cinzenta clara, sozinho, de carro, em Lisboa:

This Mortal Coil,
Blood, 1991

Air,
The Virgin Suicides, 2000